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Sempre achei que quem fala tudo o que pensa, não sabe lidar consigo mesma e com seus fantasmas interiores. E eu lido bem com os meus. Por isso, revelo-os pra mim mesma e pra quase ninguém mais.

Ontem gritei em silêncio sobre meu cansaço e a vontade de sumir daqui. Mas, ir pra onde? Não há lugar no mundo em que não esteja também minha consciência e o que nela carrego. É comum ouvir que não podemos fugir dos problemas, mas isso não é verdade. Podemos sim fugir dos problemas e das pessoas que nos causam esses problemas. Do que nunca ficamos livres é da consciência da fuga. Essa sim é que acompanha os sãos e não nos deixa esquecer nada.

Há uns dois dias li um texto de uma mulher de 27 anos dizendo que não quer ser mãe, e que não vai mudar de ideia. É interessante pensar que eu poderia ter escrito aquele texto anos atrás — e, pra ser sincera, ainda me identifico com tudo o que ela escreveu lá. Prezo minha liberdade e a vontade de fazer o que eu quiser na hora e lugar que eu quiser mais do que tudo na vida. Gosto de acordar só quando quero (ou preciso) e fazer planos para morar no outro lado do mundo, sem ter que refletir se essa será uma experiência bacana para outra pessoa que não eu mesma.

Porém, depois de ler o artigo dela, resolvi fazer algo que, geralmente não faço. Revelar a estranhas um fantasma interior. Quis deixar registrada a minha percepção de mulher alguns anos mais velha.

Tenho refletido muito sobre fazer afirmações finitas. Penso que ao fazê-las criamos para nós mesmas uma armadilha e um gatilho para a ansiedade. Acho té que isso seja ainda mais complexo pra quem é independente e gosta de lidar com seus anseios sozinha. Explico: quando fazemos afirmações contundentes, abrimos uma brecha para que mais tarde surja o receio de ter que encarar os outros quando mudamos de ideia ou quando nossa resposta deixa de ser tão severa. Porque, afinal, nossa autossuficiência é uma cobrança infinita e quando contamos pro mundo o que vai no âmago do nosso ser, acabamos limitando nossas próprias decisões.

Photo by Simon Migaj on Unsplash.

Ser mulher é lidar com mudanças hormonais mensalmente e com um prazo de validade certo. Ok, há sempre a possibilidade de congelar seus óvulos, mas isso significa gastar dinheiro com algo que, provavelmente, é de pouca importância. Eu, por exemplo, estou com 38 anos eu continuo querendo outras coisas que não são compatíveis com a maternidade. E não tenho medo de falar sobre isso. Minha angústia não vem da minha decisão de ser ou não ser mãe, mas do medo do arrependimento tardio. É isso que me leva pra terapia (claro que não só isso, caso contrário, seria muito fácil resolver tudo numa única sessão, mas isso não vem ao caso).

E, por favor, não me venha falar que se eu me arrepender mais tarde posso adotar. Acho adoção uma coisa linda e, estranhamente, sempre pensei que um dia adotaria (o que não faz sentido algum, eu sei). Minha dúvida não é sobre ter um filho é sobre viver a experiência. Os estadunidenses têm uma expressão muito legal para definir isso: FOMO = Fear of Missing Out (medo de não experimentar o momento).

Minha questão, portanto, é ter que decidir não viver uma experiência que hoje me é possível e que muito em breve não será mais. É saber que escolho não ver a genética funcionando e que essa escolha é finita. E nisso estar sozinha. Não há absolutamente ninguém que possa falar algo que me ajudará a lidar com esse fantasma. Posso conversar sobre o tema e ler livros sobre o assunto, mas, ao final, é exclusivamente minha a decisão de trilhar um caminho novo e, ao fazer isso, ter que automaticamente deixar de explorar outras estradas.

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